sábado, 23 de janeiro de 2010

Condições no Haiti (Sáb, 23/1)

Enquanto as agências publicitárias Reuters e Associeted Press (AP), juntamente com todos os outros jornais comprados à ponta da baioneta e encantados pelos esforços regulados da ajuda humanitária oficial, exaltam ao paraíso personagens como Floriano Peixoto, P.K. Keen e Douglas Fraser, em seu trabalho infatigável por “restaurar a ordem”, coroam com folhas de loureiro as valentes tropas da ONU e nunca se cansam de contar os horrores do reino democrático do terror, dois novos Messias – ao menos quanto ao aparecimento público em relação ao Haiti – patrícios de Wall-Street, subiram ao Monte Sinai. Outro deles só subiu escondido para dizer que, na verdade, não queria estar ali.
A testa e o nariz do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, quis deixar muito claro de uma vez por todas que para a grande burguesia a marcha do tempo histórico é sim reversível, eventos e medidas do início do século XX não são relicários e velharias do passado, que não são “viúvas da Guerra Fria”, desde que se trate da eucaristia e salvação do capital norte-americano. A mudança tênue dos efeitos históricos traz consigo o privilégio da verborragia, e o passado só é irresgatável quando se fala de tal ou qual revolução popular.
Pois bem; o sr. Dominique não titubeou em proclamar a partir de seu cajado: “Minha crença é que o Haiti, incrivelmente atingido por coisas tão diversas – escassez de alimentos e a crise nos preços dos alimentos”, [conheças antes de tudo o berço das coisas, Josué!], “então o furacão, e agora o terremoto – precisa de algo grande, não uma tentativa tímida, mas algo muito mais impactante para a reconstrução do país, um tipo de” [abracem-se] “Plano Marshall”.
O Plano Marshall, enviesado pelo Secretário de Estado George Marshall, esteve no bojo dos esforços desesperados dos Estados Unidos, após a Segunda Grande Guerra, do qual foi o motor principal, para inverter toneladas de dólares sobre as economias européias arruinadas e impedir que começassem a “falar russo”, silenciando-os pacificamente com seu dinheiro e contendo a crescente ameaça militar soviética. Enquanto na América do Sul o caráter real do capitalismo “democrático” norte-americano se revelava claramente pelas ditaduras tirânicas dos déspotas sedentos de sangue como Getúlio Vargas e Fulgencio Batista, que não eram mais que o instrumento político dos EUA “democrático” e imperialista, na Europa cumpriu seu papel de “pacificador”, revitalizando novamente a dominação capitalista nos seus pontos mais débeis (inclusive Alemanha), contra as investidas do Kremlin.
Convertendo-se no principal centro econômico e financeiro do mundo – já como fio de continuidade do que fizera após a Primeira Grande Guerra injetando na Europa os milhões do Plano Dawes-Young – e exigindo pela reconstrução um tributo mais pesado ainda para as regiões coloniais e semi-coloniais, ajudou no renascimento das ilusões democráticas na Alemanha, França e Inglaterra, levantando a imposição da limitação na fabricação de armamentos, que impediam o pagamento das dívidas de guerra a Wall-Street. Essas inversões monetárias na Europa foram importantíssimas para obstar definitivamente os movimentos de libertação das colônias e semi-colônias na América, África e Ásia.
Vê-se como semelhante “plano” ajudaria a situação haitiana a longo prazo. Ela não poderia, porém, vir senão da cabeça e do nariz do Fundo Monetário Internacional.
E de um modo, o sr. Dominique aderiu resolutamente à sua idéia; aqui, o chefe do FMI declarou-se a autoridade imperial mais cômica de todas as autoridades imperiais: o Fundo prometeu ao Haiti um empréstimo livre de juros de US$100 milhões em fundos emergenciais para que o governo possa cobrir atividade essenciais(!) e importações urgentes(!).
Mas, que governo? Tudo que o Haiti não tem agora é um governo próprio. O país está inundado com as Forças Armadas de todos os países, e com a força combinada de todos eles, a MINUSTAH. Seu “presidente” em tempos “de paz”, René Préval, fez sua primeira aparição pública no funeral do Arcebispo do Haiti, ontem. Perguntado por que não se manifestara ainda, ele se limitou a evadir-se: “Não se trata hoje de política”. Esse é o Messias envergonhado de subir ao Monte. Façamo-lo descer.
O Messias do Grande Fundo reportou: “A coisa mais importante agora é que o FMI está trabalhando com todos os doadores para tentar apagar toda a dívida haitiana, inclusive nosso novo empréstimo. Se nós conseguirmos – e tenho certeza de que conseguiremos – mesmo esse empréstimo se tornará finalmente uma concessão, porque toda a dívida será apagada, e isso é algo muito importante para o Haiti”.
Faço de conta que estou emprestando quando na verdade todo o mundo está doando; faço de tudo para mostrar que, em realidade, eu estou fazendo todos doarem e apagarem as dívidas que o Haiti possui para com eles. Quando menos se espera, a minha doação travestida de empréstimo tira a roupa e magicamente se torna doação, mas ficando claro que sem minha intervenção esse milagre não teria lugar. No fim, acabo sendo o maior samaritano, mesmo quando na verdade só ajudei a destruir socialmente o país.
Brilhante. Mais ou menos.
Ele disse que o FMI colocou os fundos na forma de empréstimo em vez de uma doação direta para agir rapidamente, já que o Fundo Monetário Internacional não possui meios de entregar dinheiro de outra forma que não em empréstimos. Todos nos sentimos confortados pela existência de órgãos mártires que suam todo o seu sangue para transformar a obrigação da doação na nódoa da dívida.
O terceiro Messias é bem conhecido na América Central, principalmente pelos ocorridos recentes em Honduras. Trata-se do Secretário Adjunto do Estado para Assuntos no Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela. Este homem bíblico fez todo o possível para desmistificar os desconfiados da idéia absurda de que os EUA estariam aproveitando a situação para diluir em cada molécula de ajuda humanitária uma cadeia carbônica de soldados “da lei e da ordem”. Disse que os Estados Unidos não têm nenhuma intenção de “ocupar” o país; de que suas forças militares, como os egípcios na Galiléia, estão simplesmente ajudando no fornecimento de comida, medicamentos, e ajuda no resgate.
Mas o profeta foi renegado em sua própria terra. Os Estados Unidos já enviaram, ou estão enviando, mais 20 navios de comando da Marinha e do Exército para o Haiti, incluindo porta-aviões e navios anfíbios que carregam equipamentos terrestres e helicópteros, assim como milhares de marinheiros, soldados, fuzileiros navais, da guarnição da aeronáutica, e da guarda costeira. A cifra dos 15,000 soldados recebeu forte lubrificação.
Valenzuela acrescentou que as questões de segurança no Haiti estão nas mãos das forças das Nações Unidas (órgão de que é chefe e patrocinador mor), e que a milícia norte-americana está ali apenas para “apoiá-los”. De repente, são as tropas das Nações Unidas que precisam de apoio e proteção. Ou os EUA não compreendem a situação, ou estão ali realmente para o caso de algo dar “errado”.
A presença das falanges messiânicas dá todo tipo de esperança e coragem a seus apóstolos. A polícia haitiana dá curso em pleno dia a seus “feitos heróicos” de intransigência a favor da política de sobrevivência capitalista na capital. Em procedimentos selvagens contra o povo faminto, um policial haitiano disparou tiros em cada um de dois suspeitos de haver “saqueado” um saco de arroz de um dos armazéns da cidade. Um deles, atingido na bacia, permaneceu sentado chorando de dor e pela crueldade dos não-paisanos, enquanto a outra vítima dos cães da polícia local, ferido mais gravemente, ficou estirado na rua com o saco de alimentos esparramado ao seu lado. Alguns repórteres indignados tiraram a prova real com os policiais que haviam atirado enquanto o comandante da polícia interveio e, relapso como quem não dá a mínima, garantiu que chamaria uma ambulância para os dois. Duas horas mais tarde, o corpo estendido, agora morto, encontrava-se onde havia caído. Fontes locais asseguram que o estado de ânimo da milícia haitiana é deixar os mortos na rua e usar o terror para dar o exemplo.
Esses vermes da gendarmeria, regentes crus da sinfonia da dor haitiana, apresentam como se mantém a lei e a ordem durante a completa desordem social dos homens famintos, e usam o terror como conditio sine qua non da continuação da ajuda humanitária. Denunciamos abertamente o papel criminoso desses assassinos do Haiti; a população não teme as quadrilhas do local como deve temer os seus próprios guardiões. Todos os policiais responsáveis por esses delitos são culpados de alta traição; qualquer oficial ou comandante que ousar dar ordem para que suas brigadas abram fogo contra a população deve ser acusado de alta traição e punido severamente. Infelizmente, no momento atual, o próprio povo pobre e trabalhador haitiano não se encontra em posição de coordenar esse tribunal popular contra os lacaios assassinos do imperialismo; ainda assim, as organizações de esquerda internacionais precisam colocar pesadamente este instrumento de pressão sobre a burguesia e, sem qualquer compromisso com ela, exigir a punição imediata dos verdadeiros saqueadores da força de trabalho haitiana,

a pálida canalha que é observada
como a fé, o amor e a esperança


Até agora, o Haiti catalogou 111,000 mortos e 609,000 desabrigados. Qual porcentagem dessas mortes teve como responsável a negligência da ajuda oficial e a truculência desses saqueadores das vidas haitianas, não é certo. Um índice intrigante é que 5288 norte-americanos foram removidos do Haiti. Essa é a confiança do país nas forças armadas sob seu controle.

André Augusto, membro do CACH "Terra em Transe"

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