sábado, 23 de janeiro de 2010

Condições no Haiti (Sex, 22/1) - parte 3

Principalmente, é necessário que uma voz se posicione de maneira politicamente contrária à forma como expõem os “feitos heróicos” dessas brigadas todas as mídias (Reuters, CNN, Globosat) compradas pelo imperialismo norte-americano, do qual as tropas da MINUSTAH – e a burguesia brasileira – não representam senão o apêndice canino mais servil. Há que se estabelecer, nesse momento, com toda a energia pedagógica possível, a linha de continuidade entre as operações policiais da MINUSTAH e a manutenção do predomínio do capital imperialista norte-americano e europeu no Haiti; o mesmo capital que transformou um país outrora auto-suficiente na produção de arroz, elemento fundamental da dieta da região caribenha, em um país importador de 80% do arroz que consome.
Os chefes do procedimento da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti dizem que “só podem trabalhar sem segurança durante a luz do dia” e, por ocasião do atraso que isso causa na entrega dos medicamentos, mais Forças Armadas norte-americanas enviadas ao local assumirão uma cota maior da responsabilidade pela segurança. Será que a cordas vocais da milícia imperialista da ONU falham e seus lábios tremem pelo terror que “algumas gangues da capital” fazem adentrar em seu coração, ou há algo mais que "gangues" que têm de paralisar? Por que injustiça as fileiras pacificadoras deveriam olhar para os lados antes de ajudar? Por que o dócil Diógenes precisa temer suas formigas?
A presença marcada dessa voz política de oposição é urgente. A articulação que precisa imprimir na consigna da remoção das tropas – que é uma consigna central – é que o povo pobre e trabalhador do Haiti seja o verdadeiro responsável pelo controle da ajuda humanitária em suprimentos alimentares e demais víveres, para que casos terríveis como o da distribuição dos alimentos por caminhões da ONU, ocorridas na sexta-feira (15/1) não se repitam; que a ajuda prestada pelas equipes internacionais de resgate, corpos de bombeiros, engenheiros para remoção de escombros e equipes médicas seja coordenada com a insubstituível ajuda do próprio povo haitiano, que se mostra completamente disposto a fazê-lo e que se demonstrou até agora o verdadeiro herói da recomposição do país. Tudo isso enquanto preserva sua total independência organizativa e política, exercendo o direito de priorizar as necessidades reais da classe trabalhadora e do povo pobre do Haiti, separadamente da pequena burguesia comercial traidora.
E é urgentemente necessário sublinhar o fato de que os haitianos só não se destacaram mais nesse aspecto pelo caráter de sabotagem que as forças imperialistas da ONU imprimem a partir do oligopólio da ajuda humanitária, que sequer atinge a população desamparada.
No FlashMob realizado nesta quinta-feira em Campinas, no Largo do Rosário, um jipe do exército, tripulado por dois soldados, observou de relance os cartazes pintados com frases “Não se pode remover escombros com fuzis e balas de borracha” e “Envio de ajuda humanitária sim, envio de mais tropas não!”, e se deteve. Um deles disse ter ficado no Haiti sete meses, e que tem sete autuações por homicídio, ao que sempre acompanhava mostrando condecorações por isso. Matou sete pessoas porque “atiravam contra ele”. Se nenhum deles o atingiu, supomos que ou ele é muito bom em brutalizar o povo oprimido, ou se encontrava em situação de proteção privilegiada para balear a população. A segunda opção é a mais provável.
Conversava sem tirar a mão da arma, que deixava a olhos vistos. Ao receber respostas de dois estudantes às suas cínicas perguntas, e notando que não venceria o argumento ali, disse que voltaria ao Haiti, para proteger aquela região que era “fronteira do narcotráfico”. Ao replicar um estudante: “Uma via de acesso do narcotráfico em direção aos EUA, certo? Então vocês protegem a fronteira norte-americana também?”, o soldado mudou de assunto e disse que entregaria nossa declaração aos haitianos.
Esperamos sinceramente que nenhum haitiano, nas atuais condições, tenha de se encontrar com qualquer um deles.

André Augusto, membro do CACH "Terra em Transe"

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