sábado, 23 de janeiro de 2010

Condições no Haiti (Sex, 22/1)

Um dos oficiais da administração dos esforços para recompor o Haiti após o terremoto da última terça-feira, não nomeado pela fonte da CNN, afirmou que mais de 300 locais para distribuição de ajuda humanitária estão funcionando. Entretanto, na mesma entrevista, admitiu que nem toda ajuda, particularmente suprimentos médicos, consegue alcançar o epicentro da aglomeração urbana à espera dos medicamentos; mas não deixou de “amenizar” a desproporção da ajuda precisada e daquela realmente enviada fornecendo a peça de notícia de que “ao menos metade dos vôos que entram no Haiti carregam suprimentos de ajuda humanitária. A maior parte dos outros 50% dos vôos, inclusive os das tropas militares dos EUA e de outros governos estrangeiros, carregam ainda algum tipo de ajuda”.
Não necessariamente para o Haiti. É incontestável que os EUA distinguem muito bem os seus interesses humanitários daqueles interesses dos haitianos, e os pesam em primeiro lugar antes de fazer remessa da ajuda. O rápido fortalecimento do povo haitiano, sua recuperação econômica, tanto com a liquidação de grande parte da dívida externa contraída às amarras com o abutre do norte como com o fim do plano de sustentação de sua economia sobre a base da monocultura da cana-de-açúcar para a produção do etanol – idéia brilhante fornecida pela burguesia brasileira, que experimenta saborosamente a pauperização dos campos do país – não andam de mãos dadas com o alcance mundial dos interesses imperialistas norte-americanos e dos fundamentos de seu poderio e daqueles dos velhos países imperialistas europeus. A ajuda, nessas condições, precisa ser gradual e – manca.
Alguns exemplos já foram colocados incessantemente nos textos anteriores; grupos de auxílio como o “Médicos Sem Fronteiras” (Doctors Without Borders), culparam pela morte de cinco vítimas o atraso da gestão de distribuição dos suprimentos. Durante todo o período desde o terremoto, vários vôos carregando ajuda médica foram divergidos do aeroporto de Porto-Príncipe para o aeroporto circunvizinho na República Dominicana. Isso acontece, depois como antes, do aeroporto da capital haitiana ficar abarrotado de aeronaves pela falta de coordenação dos órgãos internacionais, que tomaram o lugar para si.
A partir disso, as Forças Armadas norte-americanas tiveram prioridade nas decolagens e aterrissagens que carregavam consigo destacamentos do exército. Já não podiam contar com a sorte para impedir que a necessidade premente de comida e bebida não fosse buscada de maneira unitária com um levante pela libertação nacional dos colonizados. Enquanto instalavam a nova torre de controle, fecharam o aeroporto. Agora, com as críticas se amontoando sobre sua decisão de priorizar o envio de tropas ao invés da ajuda humanitária, não houve remédio senão mesclar em cada remessa de água entregue por helicóptero no pátio do Palácio Presidencial um contingente de militares, que curiosamente não voltam para trazer novas remessas. Há muitos deles, claro. Não há desperdício aqui.
Renzo Fricke, coordenador de campo do “Médicos Sem Fronteiras”, afirmou durante a semana que a equipe tinha de comprar serrotes no mercado para executar amputações, na falta dos instrumentos mais adequados para fazê-lo. Faltando álcool, doutores usavam vodka para esterilizar equipamentos e instrumentos. Pacientes cirúrgicos eram dopados com altas quantidades de analgésicos, por ocasião da ausência da medicação forte na quantidade correta.
Enquanto isso, o montante das tropas no Haiti, apenas o norte-americano, atinge mais de estarrecedores 15,000 soldados; todos os portos, em processo de reconstrução e outro recentemente aberto no sul da cidade, como também os aeroportos de Porto-Príncipe e de Santo Domingo na República Dominicana, estão sob custódia do exército norte-americano. O píer na região sul da capital haitiana (mais velho e menor que o píer destruído pelo terremoto na região norte), onde atracou mais cedo um navio da marinha holandesa carregando 90 toneladas equivalentes em ajuda humanitária, foi reparado pela equipe do lugar-tenente e comandante da Guarda Costeira dos EUA Mark Gibbs.
Mesmo que os navios cargueiros possam alojar mais suprimentos que os aviões, aqueles estão sujeitos a novos impactos; o tremor desta quarta-feira paralisou novamente os esforços via marítima por três horas. Enquanto esse atraso não pôde ser evitado, é feito imperdoável pelo atraso representado pela inutilidade dos insumos alimentares estacionados nos estabelecimentos comerciais da capital, negados à população. De nada adianta 140 vôos diários ao aeroporto haitiano se o povo de Porto Príncipe não possui meios para esperar essa ajuda, e o estômago é o maior relógio.
Esses efeitos são os resultados lógicos das forças que operam como instrumento da opressão imperialista, que se destina acima de tudo a violar a independência nacional e a não permitir que os haitianos a alcancem minimamente, mesmo pela priorização de suas urgências vitais: comida, bebida, roupas e moradia. Essas forças de contenção, dentro das quais salta aos olhos a participação monstruosa da MINUSTAH, que comanda a polícia haitiana que fuzilou alguns moradores de Cité Soleil por haverem apanhado comida em casas comerciais, impedem que os habitantes de Porto Príncipe dêem a sua solução ao problema, mesmo com a ajuda sincera de alguns órgãos.
Isso traz à baila o exame de uma das bandeiras da campanha pela real ajuda ao Haiti.

(Continua)

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