Por André Augusto
A terra andina não parou de tremer imediatamente após o terremoto de 8.8 pontos na escala Richter ocorrido no sábado, que atingiu, desde a costa do Pacífico na América do Sul, toda a região central do Chile; não se pode delinear bem quando o terremoto parou de romper o solo e quando as botas militares rufaram o chão ao se apressarem para defender a saúde das mercadorias alojadas em estabelecimentos comerciais na capital Santiago e em Concepción. Está se tornando uma tendência enfurecedora que após cada terremoto, os objetos inanimados sejam os que primeiramente recebem os socorros, ao invés de entregarem seu caráter natural à satisfação dos desejos humanos.
Os terremotos são acompanhados pela fúria dos operativos militares, que por sua vez são acompanhados pela visita da secretária imperial Hillary Clinton e pelo ex-presidente Bill Clinton. Aquela aparecera hoje (terça-feira, 2/03) no Chile, enquanto este afigurará até semana que vem. Da mesma forma que em Porto Príncipe: estendendo as asas compassivas do avariado abutre do norte a todas as nações da América Latina.
No domingo, decretou-se estado de catástrofe pelo governo, o que a direita chilena pedia a gritos. As Forças Armadas se encarregaram da administração e do abastecimento das regiões de Maule e de Bio-bio, após o chamado da presidente chilena Michelle Bachelet por um “estado de exceção” para que se “garanta a ordem pública e se acelere a entrega de ajuda”. Esse tipo de “ordem pública” é sempre instaurada por cima dos estômagos famintos dos trabalhadores desabrigados, e não tem nada que ver com a saúde pública. É a imposição da fome pela subserviência à ordem. Unidamente a isto, iniciou-se a implementar o toque de retirada desde as 21h da noite até as 6h da manhã; o que de segunda-feira para terça se transformou num toque que durou das 20h da noite até o meio-dia da jornada seguinte. Suprimiram-se as liberdades de reunião e associação e a Defesa nacional se encarregou de, com isso, assegurar a já adoentada “ordem pública”, ou seja, a proteção da segurança da classe patronal contra os focos de “saques” não somente nas regiões que possuem Concepción como seu setor principal, senão também de comunas pobres e de trabalhadores de Santiago como Quilicura ou Lampa. Mais de 10,000 efetivos militares tomaram as ruas chilenas já na segunda-feira.
O toque de retirada primeiramente estabelecido em Concepción expandiu-se a grande parte da VII região. As cidades de Talca, Constitución e Cauquenes se encontraram de ontem para hoje também sitiadas. E enquanto a primeira atenção se volta ao eletrocardiograma dos insumos alimentares dentro de supermercados e mercearias “selvagemente saqueadas”, não há distribuição de alimentos à populaçõ de Maule e Bio-bío, que se encontra literalmente morrendo de fome. Enquanto aumenta o desespero da população trabalhadora, o empresariado chileno, como o leopardo inglês com a inscrição, “Eu durmo, não me acorde!...”, lança seu relógio despertador na cara dos atingidos pelo terremoto na forma da mais repressão pelas Forças Armadas, que já no domingo deu-se o prazer de chutar as pessoas, já no chão, acusadas de roubarem artigos de consumos nos supermercados locais, as mesquitas invioláveis do capital.
A política do governo que foi, daquele que vem, e de algumas sombras municipais se apresenta totalmente revestida da reação mais covarde e desesperada, em alguns casos. A presidente Michelle Bachelet, após entregar os estômagos populares na fórmula “estamos sob estado de exceção!”, enviou efetivos policiais e militares às regiões mais afetadas pelo sismo. Caminhões de guerra com jatos de água para dispersar a população são obras de sua autoria. O presidente eleito Sebastián Piñera, empresário da direita pelo partido Renovación Nacional, senador entre 1990 e 1998; dono do Chilevisión, canal de televisão transmitido nacionalmente; possuidor de 26% do Lan Airlines, e grande acionista da ABSA (Aerolinhas Brasileiras S.A.), empresa de logística aérea brasileira, sediada – pasmem! – no aeroporto Viracopos em Campinas; detentor de 13,7% do clube de futebol Colo-Colo, e que em 1989 chefiara a campanha presidencial de Hernán Büchi, ex-ministro das finanças de Augusto Pinochet, não fez vergonha ao seu currículo. Disse que, "Quando temos uma catástrofe desta magnitude, sem água ou luz, a população, com certa razão, fica angustiada e perde o sentido da ordem pública".
E o único pecado humano é a ignorância! Pois bem, numa situação em que a população pobre e trabalhadora está angustiada pela fome, em que portanto “perde o sentido da ordem pública” na anarquia do armazenamento capitalista, isto é, perde a noção de que a ordem pública da economia capitalista funciona a partir do princípio de que os trabalhadores se submetam cotidianamente à fome e abriguem-se sob tendas de pano e recortes de calhas nas ruas, é necessário conscientizá-los. E para que esta população proletarizada não baile sobre sua cabeça e perca logo seus sentidos por longo período, as “Forças Armadas estão preparadas para contribuir em tempo de crise e catástrofe”. O Ministério da Guerra pago pela mesma bolsa patronal administrará o sabre burguês sobre a fome operária. E com que mais podem contribuir as Forças Armadas em tempos de crise de contenção popular e quando a catástrofe natural fornece às massas o exemplo social mais evidente de que os conservadores oficialistas como Michelle Bachelet e os empresários reacionários como Sebastián Piñera têm mais medo de que os trabalhadores se alimentem da propriedade privada do que de a propriedade privada se alimentar dos trabalhadores?
Nada mais que balas de borracha, canhões d'água, caminhões de guerra com soldados fortemente armados, espancamentos dos “saqueadores” nas calçadas, que apenas cometeram o crime de saquear depois de terem sido diariamente saqueados.
O mais provocador e histérico de todos eles foi o prefeito oficialista de Hualpén, na comuna de Bio-bio, que assinalou em entrevista a uma rádio local em gritos totalmente reacionários à população: “A autoridade regional está superada, totalmente superada, os governos locais não somos suficientes, está tudo terminado; por favor, vos suplico, que mandem imediatamente resguardo policial!” “Que tenham mão dura, se tem de matar, que matem, pois isso já é o caos!”
Não há nada mais ridículo e odiento do que ouvir as lamúrias de um usurário amedrontado, abraçando-se o mais forte possível a sua bolsa de moedas.
O Partido “Socialista”, chamado a compor as fileiras da política do governo – e portanto da direita – contra o povo, revela seu caráter de partido patronal na sentença: “a grave situação da ordem pública”, personagem gordamente citada aqui!, “obriga o uso da força do Estado que garanta a segurança da cidadania contra a violência, do vandalismo e do aproveitamento indevido da catástrofe”. E, entretanto, no Haiti as direções imperialistas se aproveitam da catástrofe para mergulhar no sangue haitiano as licitações de empresas multinacionais de construção civil, reconstruindo o país com ossos. Tanta coisa pelo aproveitamento indevido de catástrofes!
Há que se organizar uma solução operária e popular a essa crise social! A solução da direita e da oposição patronal só podem perpassar os ultrajes de ataques repressivos dos militares, com a experiência de quem já serviu Pinochet. Os saques e as revoltas são uma reação justa e desesperada da população pobre que se encontra sem comida, sem luz, água ou qualquer forma de abastecimento. A resposta popular e operária passa pela organização direta da distribuição de alimentos e de abastecimento desde as organizações operárias, as juntas de vizinhos, os sindicatos da saúde e da alimentação e das organizações estudantis. É necessário o confisco dos artigos de consumo estocados nos grandes supermercados, que desperdiçam toneladas de alimentos por mês, sob nenhuma indenização, além do financiamento estatal. As organizações populares, estudantis e operárias não podem ficar sob custódia das Forças Armadas que, por experiência histórica e não por aliterações teóricas, são incapazes de dar fluidez à solidariedade do povo para com o próprio povo, e apenas atravancam a disseminação da ajuda, como fazem agora de maneira criminosa no Haiti.
Abaixo de uma vezpor todas a criminalização dos esforços de sobrevivência da classe trabalhadora!
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