terça-feira, 2 de março de 2010

Resultados da incursão ianque

Por André Augusto

As primeiras vítimas afegãs da pretendida hecatombe planejada pelos EUA já são noticiadas; tudo para "farejar, encontrar e massacrar os líderes do Taliban" - nome do bilhete que justifica, aos americanos e às suas sombras políticas, a sua permanência no Afeganistão desde 2001, que prefaciam como a "solução da questão social" no Afeganistão. 27 civis foram mortos e 14 outros foram feridos no ataque aéreo das forças da OTAN, no domingo, na província central de Daikondi, de acordo com o Ministério do Interior afegão. Crianças e mulheres estão entre as vítimas.

As reações? O Pentágono se limitou a informar que "aceita" os números provistos pelo governo afegão e pela Força de Assistência para a Segurança Internacional da OTAN (ISAF), enquanto o general das forças norte-americanas no Afeganistão, Stanley McChrystal, disse "estar extremamente entristecido com a perda de vidas inocentes". Pobre McChrystal! Os oficiais de alta patente têm o peculiar fardo agridoce de imaginar que suas lágrimas trazem em si o condão de servir de bolsas sangüíneas para os esgotados, de recompor os membros mutilados dos trabalhadores que tentam assassinar, de ressuscitar as famílias descompostas por seus canhões howitzer e caças F-16! Tanto assim que, ainda enxugando as últimas lágrimas, o pronunciamento do militar passa longe de tratar do fim da intervenção bélica do país, menos se diga do Oriente Médio.

Uma vez que tenha aceito as condições da constituição do exército e suas funções imperialistas, McChrystal, pode-se revisá-la apenas sobre suas próprias bases, isto é, na medida em que quadre aos desejos do Senado e da Câmara parlamentar composta por magnatas financeiros, grandes industriais, oficiais de alta patente e pelo clero. Ali se deita; e suas faltas se deitam gentilmente em cima dele!
O general McChrystal, que chora enquanto fuzila, revelou, pelo contrário, a seguinte preocupação:

"Deixei claro às nossas forças que estamos aqui para proteger o povo afegão, e a morte inadvertida ou o molestamento de civis arruína sua confiança em nossa missão. Redobraremos nossos esforços para reivindicar de volta essa confiança”.

A “morte inadvertida” dos civis afegãos é prejudicial à permanência de nossa missão no coração do povo afegão; nenhum assassinato deve ocorrer sem a nossa advertida intenção de, encontrando as pessoas certas, matarmos nossos devidos alvos. A nota funerária de Stanley McChrystal soa assim ao povo afegão:

“Estamos extremamente entristecidos pela perda de vidas inocentes; disso não tenham dúvidas. Portanto, não se enganem se ainda achamos que a solução da crise política do Afeganistão só pode se cristalizar com os silvos dos nossos disparos, e que continuaremos a operação militar no país a despeito de dezenas de mortes acidentais até agora. As mortes acidentais são um percalço infeliz no decurso da chacina mais necessária. Pois se é certo que devemos reduzir o número de vítimas inocentes, é uma tontice esperar que possamos assassinar nossa própria missão”.

O ódio do povo pobre do Afeganistão ao domínio norte-americano na região cresce a cada novo ataque e a cada nova carnificina produzida em seu território. Apenas nas duas últimas semanas, mais de 50 civis afegãos foram assassinados em mais de meia dúzia de operações militares das forças da OTAN e dos EUA. Em duas semanas!

Alguns dias antes do ataque aéreo de domingo, um civil fora baleado a queima roupa, alegadamente por engano, por soldados norte-americanos. Na reportagem escrita no noticiário virtual da CNN, sua correspondente no sul do Afeganistão, Atia Abawi, que se aloja juntamente aos fuzileiros navais dos EUA para a cobertura da cruzada, informa logo abaixo que, “A operação [Moshtarak] move-se devagar, mas é certeira. Os fuzileiros estão conseguindo abrir caminho”. Mais um exemplo de que a mídia lacaia, comprada pelas cores imperialistas, não nutriu ainda o menor pudor em assinar em baixo as maiores atrocidades de lesa-humanidade. Essa educação só virá pela organização prática e independente dos trabalhadores de cada colônia ou semi-colônia brutalizada até pelas palavras provocativas da pálida canalha que representa “o amor, a paz, e a esperança”.

Uma dúvida recai entre muitas outras: a Operação Moshtarak, anunciada a uma quinzena e que mira a destruição do Taliban e de seus bastiões na região sul do Afeganistão, na província de Helmand, tencionava conduzir-se na região ao redor da cidade de Marjah, justamente ao sul do país. Mas o bombardeio de domingo aconteceu na província de Daikondi, na região central do Afeganistão, a milhas de distância de Marjah. O “erro”, como se não bastasse sua origem, foi ainda justificado pela alegação usada à saciedade de que “dois mísseis se desviaram de sua rota original”.

Dois mísseis guiados via satélite, sob o controle da tecnologia bélica mais avançada do mundo, “erraram o alvo”! Quando na verdade, em primeiro lugar, esses dois mísseis não deveriam ter sido disparados de maneira alguma! Isso não é tratado nos pronunciamentos oficiais! Talvez então os adicionais 30,000 soldados enviados por Barack Obama no último período ao Afeganistão tenham também "se desviado de sua rota"? E os mais de 100,000 soldados totais na região estejam apenas fazendo "escala" no Afeganistão, uma vez que quando caem no chão, descendo de helicópteros, tem a particularidade de não explodirem?

(Continua)

0 comentários:

Postar um comentário